Brasil e seu manual de silenciamento de pensamentos e pessoas, uma censura básica de uma ditadura.
George Orwell tinha um nome para isso: duplipensar. A arte de acreditar em duas ideias opostas ao mesmo tempo. E, ultimamente, o Brasil tem sido um palco primoroso para essa ginástica mental.
No dia 17 de setembro de 2025, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, foi ao microfone e declarou, com a serenidade de quem descreve um dia ensolarado, que no Brasil “vigora a mais plena liberdade de expressão” e que “não existe caça às bruxas”.
Palavras bonitas!
Mas as palavras, no Brasil de hoje, parecem pesar. E para muitos, elas têm custado caro demais. O que Barroso descreve soa como um país, o que muitos brasileiros vivem soa como outro, completamente diferente.
Acontece que desmontar a liberdade de expressão não é um acidente, é um projeto. E, nos últimos anos, vimos um passo a passo tão claro que parece ter saído de um manual.
Passo 1: Cace o mensageiro
Lembre-se do Terça Livre, o canal de Allan dos Santos. Você pode amar ou odiar o que ele dizia, não vem ao caso. O ponto é que ele DIZIA. E então, deixou de dizer. Não por vontade própria.
Primeiro, uma suspensão no YouTube, depois, a derrubada final. A justificativa? O carimbo de sempre: “fake news” e “ataques à democracia”. Mas quando a mesma ordem judicial silencia não apenas um canal, mas perfis secundários e até mesmo quem o retransmite, o recado é claro, não é sobre o que você diz, mas sobre quem você é!
Hoje, Allan dos Santos está exilado. A mensagem foi entregue com sucesso: certas vozes não são bem-vindas na praça pública digital.
Passo 2: Intimide a tribuna
Se calar um homem é um aviso, ameaçar uma grande emissora é uma declaração de intenções.
A Jovem Pan sentiu o peso da caneta. O Ministério Público Federal, em setembro de 2025, dobrou a aposta, pediu o cancelamento das três concessões da rádio. A acusação é de “campanha de desinformação”. Na prática, o que se lê nas entrelinhas é uma punição pela sua linha editorial.
Jogue uma indenização de R$ 13,6 milhões na mesa e observe o efeito. Não é preciso cassar a concessão para obter o resultado desejado. A simples ameaça já é suficiente para fazer qualquer um pensar duas, três, dez vezes antes de sair da linha.
O silêncio por intimidação é tão eficaz quanto o silêncio por decreto.
Passo 3: Mude as regras no meio do jogo (de novo)
Toda estrutura precisa de uma base, a base da liberdade na internet brasileira era o artigo 19 do Marco Civil. Ele era simples e genial: uma plataforma só podia ser punida por um conteúdo se, e somente se, descumprisse uma ordem judicial para removê-lo.
Isso protegia todo mundo. Protegia você de ter seu post apagado por um algoritmo medroso. E protegia a plataforma de ser processada por tudo que seus bilhões de usuários publicavam.
Em junho de 2025, o STF dinamitou essa base. Decidiu que a regra não era bem essa. Que as plataformas podem, sim, ser responsabilizadas antes mesmo de qualquer ordem judicial. O resultado? As big techs, que já não são heroínas da liberdade, agora têm o incentivo perfeito para censurar preventivamente. Na dúvida, apague. Na dúvida, suspenda. É mais seguro. É mais barato.
O Estado terceirizou a censura, e as plataformas viraram suas zeladoras.
Passo 4: Negue tudo (enquanto o mundo assiste)
E aqui, voltamos ao início. À declaração de Barroso.
Enquanto a mais alta corte do país afirma que a liberdade é plena, o Departamento de Estado americano, sob a voz de Marco Rubio, chama o que acontece aqui de “opressão judicial”. Enquanto se fala em “provas documentais”, os EUA aplicam a Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes por “suprimir a liberdade de expressão”.
Quando outro país impõe tarifas de 50% sobre seus produtos porque considera que seu “Estado de direito está se desintegrando”, talvez o problema não seja de percepção.
É o duplipensar em sua forma mais pura: a negação sistemática da própria censura que se pratica.
Uma garrafa de verdade amarga (a perspectiva Libertária)
Vamos ser diretos. Para um libertário, isso tudo não é sobre “excessos” ou “interpretações”. É sobre a natureza do poder. Poder concentrado e liberdade não dormem na mesma cama.
O que vemos é a falência da separação de poderes. Quando o mesmo time escreve a regra, apita o jogo e julga o replay, o resultado já está decidido.
A desculpa é sempre nobre, combater o “discurso de ódio”, a “desinformação”. Mas quem define o que é desinformação? Quem segura a régua? A história nos ensina uma lição sangrenta, quem quer que tenha esse poder, mais cedo ou mais tarde, vai usá-lo para proteger a si mesmo e silenciar seus críticos.
Não existe censura “do bem”. É uma ilusão perigosa!
A solução nunca foi e nunca será dar uma caneta mais forte para um burocrata. A solução é o caos barulhento do mercado de ideias. A melhor resposta para uma ideia ruim não é o silêncio. É uma ideia melhor.
O Brasil está em uma encruzilhada! O caminho que estamos trilhando já tem um custo visível, sanções internacionais, desconfiança de investidores, e o mais grave, uma geração de brasileiros aprendendo a ter medo de falar.
A escolha é simples, mas não é fácil. Reconhecemos que a liberdade de expressão é como a gravidez, não existe “um pouco livre”, e a defendemos de forma absoluta. Ou continuamos a aplaudir enquanto o silêncio é fabricado, peça por peça, até que não sobre mais nada a ser dito.
A escolha é sua! Mas não finja que ela não precisa ser feita!


